Resenha – A poesia do encontro

Pense em um livro que é mais que um livro. É um manual para ser consultado sempre! Com uma leitura gostosa e envolvente, pouco a pouco o conceito que eu tinha sobre a poesia foi se desconstruindo, modificando, aprimorando.

Perfeito não para quem gosta e escreve poesias. Necessário para quem não curte, seja pelo pouco contato com textos poéticos ou por ter aprendido de forma errada. Assim defino A Poesia do Encontro, um delicioso diálogo entre Elisa Lucinda e Rubem Alves (1933-2014), publicado em 2008. Ela, poetisa, cantora e atriz. Ele, psicanalista, professor, filósofo e teólogo.

A palavra encontra o papel, o autor encontra a imagem que vai traduzir sua ideia, o leitor se encontra com uma sensação que já conhecia, mas que nunca havia formulado claramente antes. Poesia é a arte do encontro.

(texto da contracapa)

E sabe o que é mais curioso? Os dois se conheceram nesse encontro que gerou o livro e a poesia foi um elo que os tornou íntimos naquele momento, tão produtivo e mágico que título melhor não teria na publicação.

Enquanto assistia, encantado, a Elisa Lucinda e Rubem Alves e Rubem Alves falarem (falarem, não, declamarem) sobre como a poesia se entrelaçou em suas vidas, como se fossem dimensões inseparáveis, traduções obrigatórias das dores e dos prazeres, pensava em como desperdiçamos tempo com o ensino da língua portuguesa a nossos alunos. Eu me sentia diante de um espetáculo, e não de uma conversa. Não me lembro, aliás, de ter sentido tanta emoção com a poesia como nesse dia em que os dois se reuniram para fazer este livro – uma não conhecia o outro, e a força da palavra fez deles rapidamente íntimos, como se fossem amigos de longa data.

(Gilberto Dimenstein, prefácio)

Não me lembro, durante a época de escola, de ter estudado poesia de forma tão profunda. Já tivemos que produzir textos poéticos, mas sem saber o que era de fato uma poesia, ficava difícil extrair algo de si, transformando o sentimento em algo artístico.

De certa forma, sempre tive em mente que a poesia é a tradução de nossos sentimentos e ideiais. Por isso, é como se eu me sentisse nua ao escrever um texto, porque eu tinha que tirar meus sentimentos mais profundos para produzir.

Existem aspectos formais que são muito importantes, mas a alma do texto não é a coisa formal, a alma do texto é a emoção. Ante de estudar a forma, de mergulhar em seus detalhes, é necessário captar a essência, a alma, a emoção. Sozinha, a emoção não é poesia, mas é a poesia que a transmite. Não acho possível que alguém retenha algum conhecimento se não tiver emoção. E a poesia pode ser um elemento de emoção para se reter conhecimento.

(Rubem, p. 137)

Memória e emoção se grudam, se integram. […] Você só pode se lembrar de uma coisa de 50 anos atrás se tiver sido marcado emocionalmente. E essa é a única possibilidade; para mim, é na emoção que a memória se cola.

(Elisa, p. 137)

Leia um poema de Elisa Lucinda aqui!

Outra questão que me abriu os olhos nesse livro é que, como a poesia era pouco explorada nos meus tempos de escola, quando algum professor o utilizava, tínhamos que fazer o quê? Interpretá-la. E quando as palavras não faziam sentido para o mundo real? Eu não sabia poesia? Ou o poeta era mau escritor? Estava louco? Até que a seguinte frase esclareceu o dilema:

É importante destacar que a poesia não é para ser entendida, é para ser vista. O poeta é uma pessoa que pinta com as palavras.

(Rubem, p. 46)

Ou seja, a poesia é para ser contemplada, como uma pintura. É ainda para ser uma ferramenta, um remédio a ser prescrito, um conselho de amigo. No livro há um capítulo que trata a poesia justamente dessa forma – Emergência poética. Elisa estava com um amigo que enfrentava um problema conjugal e ainda passou pela morte do pai. Sem pestanejar, ela recitou (ou receitou, para entrar no clima) alguns poemas, sendo um deles Leitura, de Adélia Prado. A resposta do amigo foi uma sugestão: “Elisa, você tem que abrir na cidade postos de emergência poética. Se uma pessao está passando mal, o que ela pode fazer? Ela conta a história, o drama, e você dá o poema” (p. 102-103).

Se isso fosse mentira, não existiriam nem diários para contarmos nossas alegrias e desventuras.

As pessoas só podem gostar de poesia se souberem ler, e elas não sabem. Olhe, eu tenho uma opinião: a maioria dos brasileiros não sabe ler, é um fato. Então se a maioria não lê, eu leio pra essas pessoas. Acho que é necessário que se leia para elas.

(Elisa, p. 131)

Aprender a ler é igual a aprender música: não se pode gostar de Beethoven se nunca se escutou Beethoven. O indivíduo tem que experimentar a delícia do texto; se a pessoa nunca saboreou um texto, não tem como gostar dele. Mas a maioria dos professores e dos alunos não sabe ler, sabe apenas juntar letras. Quando falo sobre isso, costumo dar um exemplo bem simples, e explico: “Olhe, na poesia e na leitura, não basta dizer as palavras certas, porque as palavras só têm sentido dentro de uma melodia e de um ritmo. É preciso aprender o ritmo, surfar sobre as palavras”.

(Rubem, p. 131)

Dá vontade de compartilhar o livro inteiro aqui, então fica a recomendação! Se você já leu, compartilhe sua opinião!

Bem Expresso recomenda (link na imagem):

A Poesia do Encontro. Elisa Lucinda e Rubem Alves. Editora Papirus 7 Mares. 4ª edição.

Até a próxima!

*Imagem em destaque: Divulgação

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