A hora da estrela, de Clarice Lispector

Galera, Clarice não é para os fracos! Em seu último livro, A hora da estrela, Clarice Lispector fez uma profunda reflexão acerca da vida e da morte por meio do narrador, Rodrigo S.M., que conta a história de Macabéa, a pobre menina do sertão alagoano (em todos os sentidos) de 19 anos que tomava aspirina sem água porque se doía o tempo todo sem saber por quê.

Intenso, introspectivo e filosófico. Assim eu resumiria a obra. Melhor, a própria Clarice. O narrador é a própria autora. O livro, com 13 títulos na verdade, conta “as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela”. O narrador então acompanha as desventuras da protagonista. E ele resolve contar sua história:

“É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste.”

Nasceu raquítica, “herança do sertão” de Alagoas. Seus pais morreram quando ela tinha dois anos de “febres ruins, lá onde o diabo perdera as botas”. Foi criada, então, por uma tia beata, sua única parenta viva.

Essa tia a maltratava, dando cascudos no alto da cabeça, “porque o cocuruto da cabeça devia ser, imaginava a tia, um ponto vital”. Batia porque gostava e para corrigir a menina, para não se perder no meio do caminho. A tia, que não tinha nome, também castigava proibindo Macabéa de comer goiabada com queijo.

“[…] ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais isso? O seu viver é ralo.”

À primeira vista parece uma história boba, nada inspiradora, mas a característica de Clarice era justamente falar do banal, das relações do dia a dia, do estranho, do anti-herói. Paradoxa, abordava o singelo de maneira profunda.

Macabéa era uma personagem digna de pena e o narrador conta sua história e ao mesmo filosofa acerca disso. A história é um gatilho para atentarmos à nossa própria miséria humana. Em todo o momento ele enfatiza essa vida sem graça, enche a Macabéa de adjetivos – e não é exagero. Ele diz que para falar dela precisa deixar de fazer a barba, dormir pouco e usar roupas velhas.

Essa ênfase não é somente para entender a miséria humana, a que todos nós estamos sujeitos, lá no fundo, mas para chamar atenção ao preconceito. Imagine uma retirante nordestina, sem experiência de vida, sem escolaridade, sem beleza, sem amigos, sem família, sem valor, pobre se virando em uma cidade grande.

Mas o narrador não a odiava, pelo contrário. Tinha pena dela, ele a amava, como está escrito na obra. Clarice, então, nos chama a atenção para a empatia. Ela mergulha profundamente na miséria de Macabéa para que a gente se coloque no lugar dos que sofrem anonimamente, dos que são excluídos da sociedade por serem diferentes. Mas todos, lá no fundo, são miseráveis. “Todo mundo é um pouco triste e um pouco só”.

Clarice vai se revelando, se entregando em cada linha. “Sou o escuro da noite”. A narrativa se mistura com os devaneios do autor. Essa escrita era bem característica de Clarice. “Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte”.

E o único momento de glória, de brilho que Macabéa tem é quando sai da cartomante. Ali acontece a hora da estrela.

A vida é um soco no estômago, mas não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Confira a resenha no canal:

Sobre a autora

Clarice Lispector nasceu Tchetchenilk, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Veio para o Brasil com apenas dois anos, para Maceió, onde morava sua tia materna. De origem judaica, seu nome de batismo era Haia Pinkhasovna Lispector, mas, por iniciativa do pai, todos mudaram de nome. Em 1925 mudou-se para o Recife com a família. Ficou órfã de mãe aos nove anos. Em 1937 mudou-se para o Rio de Janeiro, no Bairro da Tijuca.

Aos 19 anos publicou seu primeiro conto “Triunfo” no semanário Pan. Em 1943 se formou em Direito e se casou com Maury Gurgel Valente, colega de turma. Viveu muitos anos no exterior em função da carreira do marido, que era diplomata. No mesmo ano, estreou como escritora ao publicar o livro Perto do Coração Selvagem, vencedor do Prêmio Graça Aranha.

Em 1959, separou-se e voltou ao Rio de Janeiro com seus dois filhos. Trabalhou como jornalista no Correio da Manhã e estabeleceu sua carreira literária. Devido ao câncer, Clarice faleceu em 9 de dezembro de 1977, na véspera de seu aniversário. Lançou ao todo 17 obras e ganhou diversos prêmios.

*Imagem em destaque: Reprodução

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